Vida útil

Eu queria uma vida mais útil.
Não que eu seja completamente inútil. Não é isso!
Mas queria servir pra alguém além de mim.
Queria não me resumir a café, Clarice, mar e Marisa.
Queria ser o 'doninho' de alguém, como Amélie um dia foi.
Sinto falta de saber o que é amor de verdade: esse bicho papão que me assombra toda noite antes de dormir.
Queria ter um coração sereno, que encontrasse aconchego onde realmente há.
Às vezes, queria não querer.
Parece que a urgência em viver me atrapalha. Me consome.
Um instinto de sobrevivência que, ironicamente, me mata.
Como se a vida útil de um aparelho eletrônico qualquer estivesse chegando ao fim.
E quando acabar?
A vida do aparelho pode ser comprada em qualquer loja de eletrônicos.
Quanto a minha... receio que acabe sem utilidade.
Não terei como recarregá-la novamente.

Amor entre quatro paredes

A vida deu uma forcinha lhes colocando na mesma rede. Rede social.
Até então, os contatos eram superficiais, como acontece com a maioria das pessoas.
O acaso foi mais ousado, lhes colocou no mesmo ambiente. Cheio de barulhos ensurdecedores, bebidas e muita 'alegria alcoólica'! O encontro não poderia ter dado mais certo.
Ironicamente, o lugar nada reservado, lhes aproximava, lhes atraia, como se faz com os lados opostos de um imã.
O desejo, mais ousado ainda, lhes levou para quatro paredes. Uma espécie de quarto secreto, no final de um caminho por onde quase ninguém passava.
Ela não era tão bonita. Não tinha os padrões de beleza impostos pela sociedade.
Ele era um belo rapaz, pelo menos aos olhos da mocinha.
A vida foi um tanto difícil para o coração da moça de pele clara, cabelo escuro, olhar profundo e sorriso fácil, embora dissessem que ela tinha cara de mal quando não sorria.
O rapaz era simpático, tinha pele morena, lábios carnudos e chamativos. Pediam beijos sem pedir. Do coração dele sabe-se pouco. Tivera poucos relacionamentos amorosos e parecia estar num dilema.
A moça, mesmo sob efeito da bebida, descobriu no primeiro beijo que o seu coração bateu mais forte. Tinha certeza que não haveria apenas aquele encontro. Ela tinha razão.
Os encontros no quarto secreto foram ficando mais frequentes. Raramente se encontravam fora daquele ambiente. Uma vez ou outra saiam para respirar outros ares, o amor deles estava familiarizado com as paredes do quarto.
A moça, por ser carente de atenção, já não se contentava com a periodicidade dos encontros. Ela queria mais. Suspirava ansiosa para estar com o amado.
O amado suspirava, nas redes sociais, no telefone, em casa. Ela se convencia da saudade de ambos, mas não aceitava os suspiros de longe. Queria suspirar de perto. Suspiros divididos são mais prazerosos.
Em uma noite incomum, decidem sair da rotina. Faria bem para ambos.
Não foram juntos, mas encontraram-se como combinado.
Era um lugar agradável, alto astral, cheio de gente bonita, 'alegria alcoólica' exalava no ambiente, mas era um lugar mais especial. Parecia ser reservado para extravasar o amor do, até então, tímido casal.
Irônico lugar.
O primeiro abraço foi aconchegante, assim como o primeiro beijo.
A moça parecia feliz por estar ali, num ambiente incomum. Mas a felicidade acabou no segundo beijo, ou melhor, na segunda tentativa de beijo.
O rapaz parecia muito tímido para demonstrar amor em público. Não se sentia muito a vontade com carinho explícito, afagos fora das quatro paredes não lhe despertava interesse.
Os abraços apertados foram se afrouxando ali. Os beijos e olhares apaixonados ficaram trancados dentro do maldito cubículo.
Ela não entendeu. Desconhecia aquela situação, pois se acostumara a ter o carinho do amado sem restrição, em todos os incontáveis encontros que tiveram. Tentou argumentar, mas foi em vão. O rapaz estava 'posudo', convicto. Desprezível.
A moça engoliu a decepção, foi pra casa, refletiu e chegou a conclusão de que não vale a pena alimentar um amor que só existe entre quatro paredes.
Acredita ainda que vai encontrar o amor, mas já não pensa em trancafiá-lo, pretende vivê-lo com liberdade. Um amor que vá além das paredes de um quarto qualquer.

Vinte e dois de outubro

Há dias em que a vida passa despercebida. Parece que não se vive.
Amanhece. Há sol, rotina, há tudo no mesmo lugar, menos você.
Eu não estou no mesmo lugar. Estou distante, passando pelo dia.
O clima muda, você se percebe vivo. Assiste, ri, cuida do corpo e se olha no espelho.
Anoitece e do lado de fora ouço "ventos, ventania". Penso que "daqui a um mês", a noite vai ser diferente: terei um amor por perto, pra falar sobre a vida ou não precisar falar sobre nada. Apenas olhar e sorrir. Quando estão juntos ouvem e acreditam: "um dia a gente há de ser feliz, se Deus quiser!".
Mas, por hoje, um "pequeno príncipe" me espera na cama. Vou lê-lo, ou melhor, relê-lo. Suspirando e pressionando as páginas contra o peito. Pra sentir. Me sentir. Pra lembrar que tenho um coração que pulsa. Que tenho uma alma sinestésica.
O frio que sinto por dentro é maior do que a temperatura fora do quarto. O céu fecha, fica nublado. Chove torrencialmente.
Por dentro o coração reflete o tempo. Nubla. Espera o sol ou espera apenas adormecer, pois acredita em ditados: "depois da tempestade vem a bonança".
Acredita em amor também. Acredita em si.
É um coração forte. Sabe aproveitar a chuva também. Sabe viver em dias de sol ou dias nublados.
Com o tempo, aprendeu um pouco sobre o viver. Sobreviver!

Dilema

Era uma palavra pouco usada por mim, aliás, nunca parei pra pensar no que ela significava de fato. Só há duas semanas atrás é que ela veio fazer sentido, ou não.
Eu tinha a ideia do que era um dilema, mas acho que nunca havia vivido um. Pensando bem, ainda não vivi.
Segundo alguma descrição vaga e superficial, dilema é um problema que oferece duas soluções, sendo que nenhuma das quais é aceitável. Em outro lugar li que dilema é uma situação em que se deve tomar UMA de DUAS decisões difíceis.
Pra mim, hoje, dilema é esperar.
Esperar que se decida algo que já está resolvido, pelo menos para mim.
Não consigo conceber que dilema esteja relacionado a sentimento.
Em se tratando de amar, pra mim não há dilema. Amar nunca foi problema; é solução. É decisão e, portanto, para amar não deve haver dúvidas.
Amar é questão de entrega. Toda escolha difícil envolve risco. Amar é correr riscos também. Viver é arriscar-se!
Enquanto se vive um dilema, a vida não espera. Passa.
Outro dia uma grande amiga me disse que eu era muito 'instável'. Concordei completamente. Nunca fui estável. Sou transeunte da vida. Passageiro. Em muitas situações pareço não saber o que quero. Indeciso.
Mas, quando se trata de amor, ou da ideia que tenho dele, sei bem o que quero. Sei que não há dilema. Sei que quero viver. Intensamente. Apressadamente. Sem perder tempo, apenas viver!
Se preocupar com o amanhã a ponto de não viver o hoje é esforçar-se em vão. O que garante o amanhã? Nada!
Vou deixar pra usar essa palavra mais tarde... talvez. Mas, por hoje, só por hoje, decido não viver dilema. Decido viver amor. Isso me basta!

O sítio

Enchia os pulmões como se pudesse respirar o mesmo ar de alguns anos atrás.
O sítio sempre foi o lugar preferido do pequeno João Pedro. Hoje, aos vinte anos, não tão pequeno assim.
Formara-se em Medicina Veterinária na cidade grande, onde passou a viver desde a adolescência.
Voltar àquele lugar era como ver um filme onde o personagem principal era a mesma pessoa que via no espelho embaçado do apartamento.
O pé de amora, carregado da doce e púrpura fruta, tinha mudado. Parecia estar bem menor, observou João ao chegar perto da árvore.
Sentiu falta da goiabeira que ficava próximo a horta. Ela havia morrido no verão passado, atacada por uma praga que levou o caseiro a cortá-la pelo tronco. Em compensação, conheceu novas árvores que cresceram ao longo dos anos em que não pisava naquele lugar.
O lago ainda era o mesmo, mas, ao contrário da amoreira, parecia estar bem maior. O rapaz lembrou-se dos tempos em que seu pai o ensinava a nadar ali. Os olhos encheram-se de lágrimas.
O pai era um homem muito ocupado com os negócios: comprar gado, vender terra, plantar, colher, enfim, a vida de um grande produtor era bastante agitada. O pouco tempo que tinha ao lado do pai era desfrutado a conta-gotas, sem pressa.
Foi inevitável misturar as lágrimas às águas do lago. O pai havia falecido há poucos meses. O sítio lhe tinha ficado como herança e estava decidido a vendê-lo, já que cuidar de bicho na cidade grande seria o seu destino de agora em diante.
Antes de vender, veio a ideia de voltar ao lugar onde passara sua infância. Só estava ali para avaliar melhor o valor que cobraria pela terra que herdara.
A cidade grande, sem dúvida, era mais atraente, convencia-se João Pedro. A agitação que conhecera ao longo dos anos, na metrópole, parecia ter apagado da memória a tranquilidade que sentia ao deitar-se na varanda, ao entardecer, ouvindo o som das águas do lago.
Não queria lembrar-se de quando alimentava os patos e galinhas, nem do dia em que caiu do pé de tamarindo ao tentar colher um fruto. Era impossível não lembrar, a frondosa árvore continuava de pé e estava ali à sua frente naquele exato momento.
Sem olhar para trás, João decide voltar para a cidade.
A cor cinza da metrópole ofusca-lhe os olhos. O ar pesado das ruas sufoca-lhe os pulmões. Os dias seguintes à visita ao sítio deram-lhe uma sensação estranha: um menino parecia gritar dentro dele. Pedrinho, como era chamado pelos pais, queria correr e foi justamente o que fez.
Correu para o apartamento, arrumou as malas e, sem exitar, partiu para o sítio.
Nem olhou pelo retrovisor. A cidade sumiu sem que ele percebesse.
Em algumas horas de viagem estava de volta à infância.
Descalço, correu para o lago; mergulhou; comeu amoras e adormeceu na varanda. Descobriu, então, o maior valor que o sítio tinha: torná-lo, novamente, o pequeno João.


(Texto publicado na edição do mês de junho do jornal Balaio Rural, de Imperatriz-MA)

Um abraço

Vim aqui deixar uma coisa pra você.
Não sei se estás precisando, mas assim mesmo vim te dar.
É um abraço... na medida certa para suas angústias.
Um abraço que, embora simples, cabe certinho em você para usá-lo na hora e no momento em que mais precisar.
Um abraço sincero, de alguém que já não cabe mais de tanto amor!

(Dedicado à Cilla Moura)

Urbana flor do campo

Em meio à grama de uma calçada de ladrilhos, ela insiste em nascer. Delicada, bela e azul: uma flor do campo.
Esquecida. Apagada pela correria do dia-a-dia, ela está lá: viva! Permanece no anonimato por muito tempo. Talvez seja notada apenas pelo vigia, que a rega todas as manhãs ou por algum transeunte que, distraído, olha para chão na esperança de encontrar alguma moeda perdida.
Não nasceu por acaso. Está ali para enfeitar um jardim que, por ironia do nome, não havia nenhuma outra flor senão ela: a solitária flor azul.
Em uma manhã qualquer, ela desabrocha para vida. Não a sua própria vida, pois já havia desabrochado há muito tempo, mas para a vida de três jovens, encantados em ver a solitária flor resistir à “selva de pedras”.
Até que enfim seu propósito tinha se realizado: trazer beleza aos olhos de alguém. Por alguns minutos a bela flor do campo tem seu momento de glória.
Mas, movida por um súbito instinto humano, uma jovem, tão delicada e bela quanto à flor, a esmaga com os pés.
Sem cerimônia alguma, a moça pisa a flor como se pisa uma barata. Os outros jovens a censuram: “pobre flor; não merecia tal sorte!” e um deles até tenta, sem sucesso, consertar o estrago, colocando a pétala frágil e azul sobre o caule da urbana flor.
Se tivesse nascido na roça teria mais chances de viver! Enfeitaria o jardim de uma velha e amável senhora acompanhada de outras flores de cores e cheiros diferentes! Mas, a vida na cidade grande é cruel... até para as belas flores.
Pobre urbana flor do campo! Nem teve tempo de virar uma “estrela”. Se tivessem fotografado tal flor, certamente hoje estaria enfeitando, como papel de parede, a área de trabalho da tela de algum computador.

Descanso para os pés

A alma está na ponta dos dedos.
Os pés cansados de caminhar.
Cercado por um oásis, não vê nada além de solidão e tristeza.
Incoerente visão que não alcança o lago de águas cristalinas à sua frente.
Não apenas a visão; os outros sentidos também não funcionam direito.
Não ouve nitidamente.
(Confunde as palavras - sorvete = parede? Do outro lado riem).
Mas não deve ser por causa da perfuração no ouvido esquerdo ou da retração no direito. Não escuta porque não tem tempo para sentar, ouvir, 'degustar' as palavras.
A maior parte do tempo está ocupado em resolver o grande e 'irresolvível' "problema".
Com a língua pra fora, se arrasta.
Está muito cansado mesmo! As forças estão se esgotando. Mesmo que, de vez em quando, sinta ânimo para caminhar, a alma grita por descanso.
Gritos mudos de socorro. Ninguém ouve sua muda voz.
Talvez nem seja um problema na 'fala', mas uma surdez coletiva.
Os outros também tem problemas 'irresolvíveis'. Não há tempo para ouvir os gritos que não sejam seus.
Egoísmo coletivo: "em primeiro lugar, EU".
Altruísmo hipócrita: "eu me importo com você, desde que não tome muito tempo, pois tenho outras coisas mais importantes a fazer, como atualizar meu Facebook ou 'twitar' minhas frases engraçadas/inteligentes retiradas de um site qualquer.
Nem mesmo as 'instituições religiosas' escapam da lógica. Há um alívio quando o pecado é "menos grave", pois, assim, não se gasta muito tempo para aconselhar, cuidar e tratar da ovelha ferida. Parece que a parábola das cem ovelhas só serve de apoio para as piadinhas com a conhecida canção evangélica.
Mas, às vezes, há o alívio. A esperança insiste em nascer, como árvore cortada que brota 'ao cheiro das águas'.
E há aqueles que nos tiram a neblina dos olhos; nos fazem enxergar além das possibilidades. Nos fazem ouvir o que, sutilmente, o coração diz.
Há os que gastam tempo conosco, enchem nossa boca de risos, compartilham vida e, nas entrelinhas das conversas triviais, nos dizem: "estou aqui e realmente me importo com você". Há reciprocidade também nas entrelinhas.
A alma ainda está nas pontas dos dedos, mas do coração ouve-se um suspiro: "ah... o alívio!"
Pode-se, então, dormir descansado para que, ao amanhecer, os pés consigam suportar, mais uma vez, as dificuldades da caminhada.

Decida-se ou eu te devoro!

"Decida-se ou te devoro!", ouço alguém gritando.
A vida, em parte, é feita de escolhas e elas, muitas vezes, vão determinar o seu 'futuro', presente ou até mesmo quem você é.
No mundo virtual é bem mais simples: você preenche um cadastro com seu nome, cor dos olhos, altura, tipo físico, país, idioma e até 'quem eu sou'.
As opções estão a um clique e você vai marcando as alternativas que formarão sua identidade virtual. Você escolhe as fotos mais bonitas, as frase mais inteligentes, as músicas mais 'da hora'.
Mas na vida real não é tão simples assim.
Você não escolhe em qual país nascer, não escolhe seus pais, não escolhe a cor da sua pele, dos seus olhos, não escolhe que altura vai ficar aos 21 anos, enfim, há uma série de coisas que não dependem da sua vontade.
Há medida que o tempo vai passando, você vai se conhecendo e tomando algumas decisões e fazendo as suas escolhas como a namorada (o), religião (pelo menos no Brasil isso é possível), curso na faculdade, área que pretende atuar, enfim, a vida passa e vai lhe cobrando que você tome algumas decisões.
Quando se é um adolescente e se faz uma opção errada há um peso, você 'tem' o tempo a seu favor, pode se dar o luxo de errar e refazer. Quando você já é um coroa de 27 anos, não se pode mais ter tanto luxo assim. TEM que acertar, porque a vida está passando.
"Não tem namorada? Cuidado, vai acabar ficando pra titio!".
"Vai desistir da faculdade? Tá louco... vai ser um zé ninguém da vida!"
Enfim, parece mesmo que o tempo é cruel. A vida tem pressa numa decisão.
Mas, será que temos mesmo esse domínio sobre o tempo?
Será que temos autonomia para dizer: "vou fazer isso, pois amanhã meu futuro estará garantido!".
Será se temos esse controle?
Não, isso não é a minha desculpa para ficar 'com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar'.
Mas, certa vez, Jesus falou o seguinte: "Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?". Não importa o que façamos ou o quanto nos preocupamos, nunca vamos ter mais tempo do que nos foi determinado por Deus.
Espero ter muito tempo ainda para decidir novamente, pois a vida está gritando para mim:
Decida-se, pois você não é mais nenhum adolescente.
Decida-se, pois o tempo passa e não volta mais.
Decida-se, pois é preciso viver a vida para que você não seja devorado por ela.

Postagem especial: Ele escolheu os cravos

O texto a seguir refere-se ao segundo capítulo do livro "Ele escolheu os cravos", de Max Lucado. O livro é simplesmente extraordinário! Recomendo-o.
O texto a seguir é um pouco extenso, mas recomendo: não pare por aqui. Leia. Vale a pena!

"Vou Suportar seu Lado Obscuro"
A PROMESSA DE DEUS ANTE O CUSPE DO SOLDADO

O que teria acontecido à Fera se a Bela não tivesse aparecido?
Você conhece a história. Houve um tempo em que seu rosto era bonito e seu palácio agradável. Mas isto foi antes da maldição, antes das trevas caírem sobre o castelo do príncipe. E, quando a escuridão tomou conta, ele sucumbiu. Recluso em seu castelo rebelde, com um focinho reluzente e grandes caninos.
Porém tudo mudou quando a mocinha chegou. Fico pensando, o que teria acontecido à Fera caso a Bela não tivesse aparecido?
Melhor ainda, o que teria acontecido caso ela não tivesse se importado? Quem a teria culpado? Ele era tão... digamos, animalesco! Pêlos longos. Babão. Frustrado. E ela era tão bela. Estonteante. Uma bondade contagiante. Se duas pessoas se encaixassem exatamente nesta descrição, não seriam elas exatamente a Bela e a Fera? Quem a teria culpado caso ela não tivesse se importado? Mas ela se importou.
E, porque a Bela amou a Fera, a Fera tornou-se linda.
A história é familiar, não apenas por tratar-se de um conto de fadas. É familiar porque nos faz lembrar de nós mesmos. Há uma fera dentro de cada um de nós.
Mas não foi sempre assim. Houve um tempo em que a face da humanidade era bela e o palácio agradável. Mas isto foi antes da maldição, antes das trevas caírem sobre o jardim de Adão. E, desde a maldição, temos sido diferentes. Animalescos. Feios. Rebeldes. Ferozes. Fazemos coisas que sabemos que não deveríamos ter feito e ficamos pensando por que as fizemos.
Minha parte feia certamente mostrou sua face animalesca certa noite. Eu estava dirigindo em uma pista dupla, que viria a tornar-se única. A mulher no carro ao lado do meu estava na pista que continuava. Eu estava na que terminava. Eu precisava estar à frente dela. Meus compromissos eram, sem dúvida, mais importantes que os dela. Além do mais, não sou eu importante? Não sou eu o mensageiro da compaixão. Um embaixador da paz?
Assim, acelerei o carro.
Adivinhe? Ela também. Quando minha pista terminou, ela estava um centímetro à minha frente. Aumentei os faróis, reduzi a velocidade e a deixei passar. Sobre seus ombros ela me acenou com um tchauzinho. Grrrrr.
Comecei a diminuir os faróis. Então fiz uma pausa. Minha parte sinistra disse: "Espere aí." Não fui chamado para ser luz nos lugares mais escuros? Iluminar as trevas?
Então coloquei um pouco mais de luz em seu retrovisor. Só para importunar.
Ela diminuiu a velocidade, em retaliação. Esta mulher era má.
Para ela pouco importava se toda a cidade de San Antonio estivesse atrasada; ela não iria ultrapassar a marca dos vinte e cinco quilômetros por hora. E eu não iria tirar o farol alto do seu espelho retrovisor. Como dois burros teimosos, ela continuava devagar e eu continuava com luz alta. Após mais pensamentos cruéis do que ouso confessar, a pista começou a alargar, então iniciei a ultrapassagem. Sabe o que aconteceu? O farol vermelho nos deixou lado a lado em um cruzamento. O que se segue contém boas e más notícias. A boa notícia é que ela acenou para mim. A má notícia é que não foi o tipo de gesto digno de imitação.
Algum tempo depois o pensamento me veio à tona: "Por que eu fiz isto?" Sou um cara tipicamente calmo, mas durante quinze minutos fui uma fera! Apenas dois fatos me confortaram: Primeiro, não tenho adesivo evangélico em meu carro, e segundo, o apóstolo Paulo passou por lutas similares. "Porque o que faço não o aprovo, pois o que quero, isso não faço; mas o que aborreço, isso faço" (Rm 7.15). Você já se sentiu nesta situação?
Em caso afirmativo, temos algo em comum. Paulo não é a única pessoa na Bíblia que travou uma luta com o lado animalesco interior. É raro encontrar uma página nas Escrituras em que um animal não mostre seus dentes. O rei Saul perseguiu o jovem Davi com sua lança. Siquém violentou Diná. Os irmãos de Diná (os filhos de Jacó) mataram Siquém e seus amigos. Ló negociou com Sodoma, depois saiu de lá. Herodes matou os primogênitos em Belém. Outro Herodes assassinou o primo de Jesus. Se a Bíblia é chamada de Bom Livro, não é pelos seus personagens. O sangue corre livremente através das histórias como a tinta através das penas que as escreveram. Mas o lado mau da fera nunca esteve tão aflorado como no dia da morte de Cristo.
A princípio, os discípulos ficaram anestesiados, depois rapidamente fugiram.
Herodes queria um show.
Pilatos queria livrar-se do problema. E os soldados? Eles queriam sangue.
Então açoitaram a Jesus. O chicote legendário consistia em tiras de couro com bolas de ferro em suas pontas. Seu objetivo era singular. Bater no acusado progressivamente até quase matá-lo, então parar. Trinta e nove chicotadas eram permitidas mas raramente necessárias. Um centurião monitorava o estado do prisioneiro. Sem dúvida Jesus estava próximo à morte quando suas mãos foram desamarradas e Ele caiu ao chão.
Chicotear foi a primeira ação dos soldados.
A crucificação foi a terceira. (Eu não pulei a segunda. Já vou chegar lá.) Embora suas costas estivessem machucadas pelas chicotadas, os soldados colocaram a cruz sobre os ombros de Jesus e o fizeram carregá-la até o monte da crucificação, onde o executaram.
Não culpamos os soldados por estes dois atos. Afinal, eles estavam apenas seguindo ordens. Mas difícil é compreender o que fizeram neste ínterim. Eis aqui a descrição de Mateus:

Então, soltou-lhes Barrabás e, tendo mandado açoitar a Jesus, entregou-o para ser crucificado.
E logo os soldados do governador, conduzindo Jesus à audiência, reuniram junto dele toda a coorte.
E, despindo-o, o cobriram com uma capa de escarlate. E, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-na em sua cabeça e, em sua mão direita, uma cana; e, ajoelhando diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, Rei dos judeus!
E, cuspindo nele, tiraram-lhe a cana e batiam-lhe com ela na cabeça.
E, depois de o haverem escarnecido, tiraram-lhe a capa, vestiram-lhe as suas vestes e o levaram para ser crucificado. (Mt 27.26-31)

A obrigação dos soldados era simples: Levar o Nazareno até o monte e matá-lo. Mas eles tinham outra idéia. Queriam se divertir primeiro. Fortes, descansados e armados, os soldados cercaram um carpinteiro galileu exausto e quase morto, e o atacaram. O açoite fora ordenado. A crucificação ordenada. Mas quem teria prazer em cuspir em um homem quase morto?
O ato de cuspir não tem a finalidade de machucar o corpo — de forma alguma. O ato de cuspir é a intenção de degradação da alma, e muito eficiente. O que os soldados estavam fazendo? Não estariam eles elevando-se a si próprios à custa de outra pessoa? Eles sentiram-se grandes ao humilhar Jesus.
Você já fez isto? Talvez nunca tenha cuspido em alguém, mas já fofocou? Caluniou? Você já levantou as mãos enfurecidas ou levantou os olhos com arrogância? Já colocou os faróis altos no retrovisor de algum carro? Já fez alguém se sentir mal para você se sentir bem?
Foi isto que os soldados fizeram a Jesus. Quando você e eu fazemos o mesmo, fazemos isto com Jesus também. "E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes" (Mt 25.40). A maneira como tratamos os outros é a mesma como tratamos a Jesus.
"Ei, Max, não gostei desta frase", você protesta. Creia-me, não gosto de dizer isto. Mas precisamos enfrentar o fato de que há algo animalesco dentro de cada um de nós, que nos obriga a fazer coisas que surpreende até a nós mesmos. Você já não surpreendeu a si mesmo? Já parou para refletir sobre alguma atitude e pensou: "O que deu em mim?"
A Bíblia possui uma resposta com seis letras para esta questão:
P-E-C-A-D-O. Existe algo ruim — animalesco — dentro de cada um de nós. "Éramos por natureza filhos da ira" (Ef 2.3). Não é que não possamos fazer o bem. Podemos. O fato é que não conseguimos evitar fazer o mal. Em termos teológicos, somos "totalmente depravados". Embora feitos à imagem e semelhança de Deus, temos caído. Somos corruptos ao máximo. O âmago de nosso ser é egoísta e perverso. Disse Davi: "Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe" (Sl 51.5). Poderia alguém dentre nós dizer menos do que isto? Cada um de nós nasceu com tendência ao pecado. A depravação é condição universal. As Escrituras afirmam isto claramente:

Todos nós andamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho... (Is 53.6)
Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá? (Jr 17.9)
Não há um justo, nem um sequer... Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Rm 3.10,23)

Há quem possa discordar com tais palavras fortes. Eles olham ao redor e dizem: "Comparado aos outros, sou uma pessoa decente".
Note que um porco pode dizer algo similar. Ele pode comparar-se com seus companheiros e dizer: "Estou tão limpo quanto todos os outros". o entanto, quando comparado aos humanos, o porco precisa de ajuda. Comparados a Deus, nós, humanos, temos a mesma necessidade. O padrão de santidade não pode ser encontrado entre os porcos cochos da terra, mas no trono celestial. O próprio Deus é o padrão.
Somos as feras. O ensaísta francês Michel de Montaigne disse: "Não há homem tão bom que, ao submeter todos os seus pensamentos e atitudes às leis, não mereça ser enforcado dez vezes em sua vida."1 Nossas atitudes são feias. Nossas ações escabrosas. Não fazemos o que queremos, não gostamos do que fazemos, e o pior — sim, há algo pior — , não conseguimos mudar.
Tentamos... ah, como tentamos. Mas "Pode o etíope mudar sua pele ou o leopardo as suas manchas? Nesse caso também vós podereis fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal" (Jr 13.23). O apóstolo concordou com o profeta: "Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus realmente não" (Rm 8.7).
Ainda concorda? Ainda acha minha avaliação muito dura? Em caso afirmativo, aceite este desafio. Durante as próximas vinte e quatro horas, viva uma vida sem pecado. Não estou pedindo uma década ou ano perfeito, nem mesmo um mês. Apenas um dia perfeito. Você consegue? Você consegue viver sem pecar durante um dia?
Não? E uma hora? Você poderia prometer que nos próximos sessenta minutos terá apenas pensamentos e atitudes santas?
Ainda hesitante? E quanto aos próximos cinco minutos? Cinco minutos sem preocupações, raiva e vida sem egoísmo — você consegue?
Não? Nem eu.
Então temos um problema: Somos pecadores, e "o salário do pecado é a morte" (Rm 6.23).
Temos um problema: Não somos santos, e a Bíblia nos adverte a "Seguir a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb 12.14).
Temos um problema: Somos maus e "a obra do justo conduz à vida, as produções do ímpio, ao pecado" (Pv 10.16).
O que podemos fazer?
Permita que o cuspe dos soldados simbolizem a sujeira em seus corações. Então observe o que Jesus faz com esta sujeira. Ele a carregou até a cruz.
Através do profeta Ele disse, "não escondo a face dos que me afrontam e me cospem" (Is 50.6). Misturado a seu sangue e suor estava a essência de nosso pecado.
Deus poderia ter julgado de outra forma. No plano de Deus, se foi oferecido vinagre para sua garganta, porque não uma toalha para o seu rosto? Simão carregou a cruz para Jesus, mas não limpou o seu suor. Os anjos estavam presentes. Eles não poderiam ter desviado o cuspe?
Sim, mas Jesus nunca ordenou que eles o fizessem. Por algum motivo, aquEle que escolheu os cravos escolheu também a saliva. Junto com a lança e a esponja, Ele suportou a cuspidela do homem. Por quê? Seria por ter Ele visto o lado bonito da fera?
Mas a correlação com A Bela e a Fera termina. Na fábula, a bela beija a fera. Na bíblia, a Bela faz muito mais. Ela se torna fera para que a fera possa transformar-se em bela. Jesus muda de lugar conosco. Nós, assim como Adão, estávamos sob a maldição, mas "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós" (Gl 3.13).
E se a Bela não tivesse vindo? E se ela não tivesse se importado?
Então teríamos continuado como feras. Mas a Bela veio, e ela se importou.
AquEle que é sem pecado tomou forma de pecador para que nós, pecadores, pudéssemos nos tornar santos.

Excesso de saudosismo

Parece exagero. Excesso de saudosismo.
Lembranças de um tempo em que fui, realmente, muito feliz e não há mais como voltar.
Não digo que nunca mais serei tão feliz quanto àquela época, mas essa afirmação é apenas uma constatação de um fato: o tempo não volta.
Não volta a infância entre os pés de manga, goiaba e outras frutas na casa da tia Deta. Infância regada à muitas brincadeiras, risadas, afetos, abraços e a presença de Zaqueu.
Os conflitos da adolescência, medos, dúvidas e as confissões difíceis, mas necessárias, também não voltarão. Adolescência que foi marcada pelo nascimento da mais pura, forte e singela amizade.
A partir de então, não era mais apenas a presença de Zaqueu, era a necessidade de se ter um ao outro. Questão de sobrevivência!
Não voltarão mais as 'pirações' juvenis, os momentos em que, até mesmo de forma inconsequente, 'aproveitamos a vida', fugimos, matamos aulas, viajamos, lanchamos, banhamos de chuva, escancaramos nosso amor através das palavras, gestos e constante companhia.
Era comum chegar em determinado lugar e ser, de súbito, indagado: 'cadê o Zaqueu?' e, ironicamente, respondia: 'nunca mais o vi'.
É... realmente acostumei-me mal. Não imaginava que um dia não me fariam mais aquela pergunta. Queria ouví-la novamente e responder como, muitas vezes, respondia: "faz tanto tempo que não vejo o Zaca; deve ter uns dois dias que não nos encontramos". A verdade é que dois dias longe um do outro era um martírio.
Mesmo se passássemos o dia inteiro juntos, à noite, quando chegávamos em nossas casas, corríamos para o PC e continuávamos o papo no MSN.
Parece exagero. Excesso de saudosismo.
Mas não é!
Há um pouco mais de três anos a história mudou tragicamente.
Acostumar a viver outra vida não é fácil.
Não sei se dá para acostumar-se a não viver uma amizade tão forte, verdadeira.
É impossível não sentir tanta falta de alguém que era presença certa.
Não dá para conter as lágrimas ao relembrar de uma vida feliz que foi vivida por dois, mas que, por uma infeliz circunstância, foi repartida ao meio.
Parece exagero. Excesso de saudosismo.
E é.
Uma amizade exageradamente singela. Excessivamente saudosa.
Inesquecível!

Antes do amanhecer

E há dias que são mais difíceis viver.
Como uma onda, as lembranças da infância vêm à tona, saudades dos abraços, despreocupação, vida vivida sem muita razão de ser.
Dos últimos anos, resta apenas memórias de uma vida feliz que, na verdade, nem era só felicidade. Acreditar que é amado e não ser, dói. dolorida ferida de amor.
E amor fere? Não. Pelo menos até não saber que é amor.
Há dias em que viver é tão duro; uma tarefa difícil, embora necessária.
A tristeza se torna sólida, palpável, de tão real que é.
Nesses dias, sentir falta do que não viveu é imprescindível!
Há uma vida que, de fato, vivemos e outra que pensamos ter vivido.
E essa outra vida é que nos faz tanta falta.
O mundo encantado, construído enquanto vivemos certos momentos, torna-se tão mais atraente do que a vida real.
Mas, encanto de mundo não rima com vida de verdade.
As palavras mágicas perdem espaço para palavras duras que, ironicamente, sempre começam com: "Não quero te fazer sofrer". É mesmo?
Há dias em que é difícil acordar, mas é necessário. Domingo é difícil.
Sábado é solidão. Noite que antecede a profunda tristeza.
Sábado é desabafo silencioso. (sons do teclado me acompanham. James ao ouvido grita: 'Melancolia!').
Coração, do lado de fora, pede esmola, mas pedir esmola em um mundo tão egoísta é perda de tempo. É melhor conformar-se com a invisibilidade de ser mendigo.
Coração, do lado de dentro, ainda é cego. Precisa curar-se. Óculos. Colírio. Outros olhos.
É, há dias difíceis.
Dias que são apenas noites.
Dias em que se espera ansioso pelo sol. Mar.
Dias que poderiam chegar antes mesmo do amanhecer.

A primeira

Era um domingo.
Não um domingo comum, como os outros.
Dia 31 de março de 1991, há exatos vinte anos atrás, uma família se alegrava com o nascimento de um bebê.
"É uma linda menina!", disse a enfermeira à sua mãe.
Olhando para sua filha, com lágrimas nos olhos, a recém mamãe enche-se de ternura e um afeto que não há no mundo o que possa comparar.
O pai da criança, impaciente e aflito, espera do lado de fora da sala de parto. "As duas estão bem. Parabéns, papai, você ganhou uma linda princesa".
O nome havia sido escolhido: Priscila!
Segundo alguns historiadores, o nome Priscila vem do latim e significa "velha, antiga", no sentido de "a primeira de todas", a que veio primeiro. Parece que nesse caso o nome casaria bem a essa pérola recém chegada: a primeira filha do casal Neemias Macário e Sonja Cristiane, primeira bisneta do Sr. Roldão Francisco, a primeira neta tanto dos avós paternos, João Macário e Mª das Neves, quanto dos avós maternos, Sr. Valdeci e D. Rita Emília Barbosa.
E, por fim, mas não menos importante, é minha primeira sobrinha.
(...pausa para respirar e suspirar...)
Sinceramente, revirei minha caixinha das lembranças e não encontrei o dia que a vi pela primeira vez infelizmente, mas, felizmente, na caixa das emoções não me faltaram recordação!
O dia em que tirou a foto, ainda bebê, na grama da Escola Caminho do Futuro eu estava lá com espectador.
Indo de bicicletinha junto com o irmãozinho para a Escola Reino da Criança; algumas vezes tive o prazer de acompanhar esse trajeto.
As incontáveis vezes que passou férias na minha casa, fins de semana, almoços, confraternizações, aniversários, casamentos, passeios, festividades natalinas, amigos-secretos.
As inúmeras vezes que vimos filmes, comemos pipoca, bebemos refrigerantes, jogamos conversa fora e conversa dentro, que ficarão marcadas e eternizadas no fundo da mente e do coração.
Como esquecer das muitas e muitas vezes que dormi em sua casa, sem nenhuma motivação maior a não ser o simples desejo de estar perto, olhar nos olhos, conversar, sentir que estava bem... ah... faltaria 'caracteres' para descrever em palavras todas as lembranças!
Não teria como escrever/descrever coisas que palavras não podem dimensionar:
"tio, tô com fome, não tem nada na geladeira"; algum tempo depois chego com um prato de 'cenoura refogada ao azeite de oliva com tiras de presunto e queijo' e um tempero especial, que a fazia gostar de tudo o quanto cozinhava: o amor (não, não estou falando de Sazon!).
Puro, simples, sublime e imensurável amor.
Vinte anos após àquele domingo, a pequena princesa, por determinação do tempo e da biologia, cresce e torna-se mais que 'a primeira' filha, neta, bisneta, sobrinha.
Hoje, não por ser seu aniversário, pois há alguns anos a vida a tem moldado de forma impressionante, Priscila Moura de Lima tornou-se um exemplo de que pode-se ser bela sem ser vulgar, ser adolescente sem perder o respeito pelos pais, ser jovem e ter maturidade para dar a volta por cima quando sabe-se que errou e, por fim, se tornar uma mulher extremamente linda, decidida, ousada, inteligente e não perder a essência.
Quanto a mim... bem, sou suspeito para falar, basta apenas dizer que nossa história de amor, mesmo sem eu saber, começou a exatamente vinte anos atrás.
Te amo, Priscila, do mais profundo do meu coração. Saibas que para mim você sempre será a pequena primeira que se tornou a mais fiel e grande amiga.

Tudo começa na caminhada...

"Caminhar, principalmente para quem está iniciando um programa de atividades, é ideal para trabalhar a função cardiovascular, melhorando o nível de condicionamento físico; para ajudar na perda de peso e fortalecer os músculos" (fonte: www.cyberdiet.terra.com.br)

Era agosto de 2010. Pra ser mais exato, o segundo domingo do mês.
Pelos benefícios citados acima, estava fazendo, além de exercícios na academia, caminhada na pista que fica ao lado do aeroporto da minha cidade.
O domingo estava ensolarado, calmo, sem muita gente na pista. Perfeito para a pratica desta atividade física.
Quando cheguei em casa, senti vontade de visitar uma certa igreja da qual simpatizava muito: a Nova Aliança. Naquele fim de tarde não pensei muito, não deixei o corpo, fadigado, descansar. Banhei, me vesti e fui.
Sentei-me na arquibancada da igreja (na época, o templo localizava-se no Ginásio do Juçara Clube) e assisti ao culto, que estava agradável como sempre. Uma mensagem leve de um pastor visitante, sem muito 'apelo emocional', apenas as verdades bíblicas sendo pregadas e uma certa 'homenagem' ao Dia dos Pais.
Após a pregação, o Pr. Nonato, pastor geral da igreja, fez o convite para quem quisesse aceitar a Cristo naquela noite. Continuei sentado onde estava: sozinho, pensativo.
Ele insistiu e convidou alguém que quisesse 'reconciliar-se' com Cristo. Sem demora; racional e decididamente levantei, atravessei os corredores, me ajoelhei e entreguei-me de novo aos cuidados do Papai.
Naquele dia, não pensei muito sobre o que deveria deixar, sobre as dificuldade de se 'remar contra a maré' do 'mundo', do que teria de abrir mão, apenas me prostrei e disse a Deus o quanto tinha saudades Dele.
Chegando em casa, não teve como manter a mesma 'racionalidade' do culto. Abracei meu pai e, entre muitas lágrimas, disse: "Feliz Dia dos Pais. Tenho um presente pra você: voltei para os braços de Deus". Meu pai não entendeu muito as palavras, mas certamente compreendeu minhas lágrimas e, com muita alegria, me abraçou. Naquela noite, com toda certeza, ele dormiu bem leve, feliz.
Não sei se fisicamente a caminhada tem me feito bem, mas ela tem sido um ótimo exercício espiritual. Às vezes, quando saio de casa para caminhar, convido o Espírito Santo para caminhar comigo e o resultado é sempre extraordinário. Posso ainda não estar 'sarado', mas sei que essa caminhada vai render bons frutos.
Ainda não sei onde vou chegar, pois ao contrário da pista do aeroporto, a caminhada com Deus é dinâmica, o caminho nem sempre é familiar, conhecido, mas eu confio no meu personal trainer. Ele sabe qual melhor exercício pra mim.
A caminhada é longa, eu sei... Alguma coisa me diz que ainda estamos apenas começando.

O coração de Ferro

Nasceu para amar e, desde muito cedo, soube disso.
Podia até não saber o que era amor, mas amava.
Passou a infância despreocupando-se em viver, apenas vivia e sabia que era assim mesmo que devia ser. Brincava, sonhava, dormia.
Crescia.
Preocupava-se em viver. Não vivia.
Amava? Sim, mas, 'conscientemente', não sabia o que era amor.
Sabia ser amado. Queria ser e era, embora não enxergasse um palmo à frente do seu nariz ou de sua dor. Mesmo assim era amado: com dor.
O pai o amava. A mãe não precisava amar: era o amor personificado. Os irmão, da forma deles, o amavam. Mas ele mesmo só enxergava dor.
Cresceu com problemas de visão, apesar de enxergar perfeitamente.
Diante dos olhos sem fé, via os problemas gigantes, pois os aproximava muito dos olhos. Esquecia, ou não sabia ver, como eles realmente eram. A proximidade dos olhos o impediram de enxergar a vida pelos cantos, de onde apenas escorriam lágrimas, embaçando ainda mais a visão.
Por muito tempo não viu. Mas era visto.
Coração amável de Ferro. Um mole coração por detrás da ironia do apelido.
Um coração ferido, enganoso. Coração humano.
Amado por Deus e pelos que o cercavam. Aluno exemplar, amigo-irmão, tio palhaço, divertido... feliz!
Não era isso que via no espelho. Não havia sido curado da miopia: enxergava nitidamente de perto, mas tão próximo estavam apenas 'os problemas'. De longe, tudo estava fora do foco, inclusive Deus.
Via Deus de longe, por isso quase não O enxergava, embora Ele estivesse mais perto que sua própria pele.
Perdeu-se muitas vezes pelo caminho, pois não via por onde andava.
Sofreu. Mas, ainda assim, era visto.
Um certo dia também viu.
Ou pelo menos começou a ver. As coisas foram entrando no foco. Deus não estava tão distante. Ele não tinha tantos problemas assim, não era pior que os outros, era humano tal qual seu 'paistor', que errava, mas confiava em um Deus que não quer 'perfeição', quer um coração contrito, pois não resiste a um assim.
O coração de Ferro via.
E como começou a ver, não quis confiar em si próprio, pois sabia que "enganoso é o coração do homem".
Quis guardá-lo, pois aprendeu que a fonte da vida jorra do coração.
E, finalmente, percebeu que queria ser puro em meio a qualquer circunstância, pois leu um dia que "felizes as pessoas que têm o coração puro, pois elas verão a Deus".
Enfim, assim é o coração de Ferro: ironicamente, não é duro. É de carne!

Paulo me entenderia?

Pergunta difícil... não sei se sim, mas gostaria muito de entendê-lo, quem sabe assim também, me entenderia.
O dilema é o seguinte: Amo a Deus, de verdade, de coração, mas não consigo, ainda, viver como (acho que) deveria.
É um dilema muito grande porque, às vezes, a sensação que se tem é de frustração. Não me arrependo, de forma nenhuma, de ser cristão, querer negar a 'mim mesmo' e remar contra a 'maré' dos meus desejos. A questão não é essa. A frustração, na verdade, é mais um constragimento por saber que um Deus tão SANTO, amoroso e misericordioso, me ama, literalmente, 'de graça'. Não preciso, nem posso, pagá-lo pelo que fez por mim na cruz.
Essa é a parte mais difícil de entender a Graça de Deus, pois não aceitamos ganhar um bem tão incalculável: a vida eterna, assim... sem pagar um tostão por ela.
Daí a nossa (ou apenas minha, não sei) frustração de não ser perfeito para 'merecer' o dom gratuito de Deus, mas é justamente isso que significa a graça: favor imerecido!
Por que acho que o apóstolo Paulo me entenderia? Bem, pelo que me parece, eu não sou o único a ter esse 'probleminha' com o pecado. O cara que mais admiro na bíblia aparentemente também passou por uma fase, digamos, não muito fácil de compreender. Vejamos:
Romanos 7.15-25
"Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio.
E, se faço o que não desejo, admito que a lei é boa.
Neste caso, não sou mais eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.
Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo.
Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.
Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.
Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim.
Pois, no íntimo do meu ser tenho prazer na lei de Deus;
mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros.
Miserável homem eu que sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?
Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! De modo que, com a mente, eu próprio sou escravo da lei de Deus; mas, com a carne, da lei do pecado".
Enfim... um dia vou entender direitinho o que meu amigo Paulo quis dizer nessa passagem. Por enquanto, quero acreditar que ele me entenderia sim, e me daria algumas dicas de quem conhece bem Jesus Cristo: "Ferro, relaxa um pouco! Confia na Graça de Deus e ame o Senhor de todo o teu coração, alma e mente a ponto de não querer outra coisa que não seja Ele. Assim você vai passar de fase e tirar esse 'probleminha' de letra... vai por mim!"

Quem é o professor?

Chegou meio sem jeito. Cabelo “moicano”, calça jeans, camisa gola V. A turma estranha. “É aluno ou professor?”, certamente se perguntam.
Ele começa a falar. Quem sabe tenta explicar o motivo de estar ali.
Meio sem jeito ainda, continua falando, falando e falando. Enfim, a turma parece entender o que ele fala, pelo menos sabe que fala em português, mas não entende exatamente o que ele quer dizer. Questiona-se o motivo da substituição, já que o ‘antigo’ professor não deu motivo algum para se ausentar.
Enfim, entendidas as partes, passa-se para o momento mais ‘dramático’, tanto da turma, quanto do ‘novo’ professor.
A responsabilidade é grande, os alunos têm que compreender o que querem dizer aqueles números e fórmulas escritas no quadro.
Dilatação Superficial... Superfície inicial vezes o coeficiente de dilatação superficial, que é duas vezes o coeficiente de dilatação linear, vezes delta téta, ou seja, a variação da temperatura e blá, blá, blá... Alguém sabe o que está escrito? As meninas estão olhando mesmo para o quadro ou para o estilo ‘boyzinho’ do professor? Os meninos decoram a fórmula ou pensam em uma piada para ridicularizar aquela “ameaça” à atenção feminina? O começo é sempre difícil, para qualquer coisa que se vá fazer. Mas estar em sala com uma turma de jovens de diferentes culturas, pensamentos, religiões e cores, não é uma tarefa muito fácil. Certamente é bem mais simples explicar a dilatação superficial. Voltemos para o quadro, então!
O quadro, que outrora estava cheio de fórmulas e palavras, se apaga. Diferentemente das sensações que se vivem em sala de aula, que não se apagam nunca!
Sentimentos que variam do amor ao ódio em questão de segundos. Sim, ser professor também é ser intenso! É vida real! É emoção de descobrir, a cada dia, algo novo. Mas algumas situações me fizeram refletir: quem realmente ensina quem?
O professor, muito didático e atencioso, escreve o conteúdo no quadro, esboça sobre o tema proposto, aplica exercícios, explica como resolvê-los e, às vezes, quase os entrega de “mão beijada” para ter a felicidade de ver o aluno responder. O aluno, por sua vez, copia, ouve o que o professor diz (nem sempre é assim, mas... enfim), tenta resolver os exercícios e quando há dúvida, levanta o dedo e diz: “professor, não estou conseguindo responder”. Ele, solícito, vai até o aluno e explica novamente. “É, professor, é que não tenho muita facilidade com essa disciplina... trabalho o dia todo... tenho muitos irmãos... briguei com o namorado (a)... estou afim de um rapaz, mas não sei o que fazer... aquela menina me deixa fora do sério, professor, me chama a atenção...” e assim vai, compartilhando não só os problemas aritméticos, mas os problemas da vida. Vida que, às vezes, é incerta quanto ao futuro.
Que profissão seguir? Estudar ou parar? Ser apenas dona de casa ou tentar uma vida mais independente? Trabalhar ou continuar estudando mais? E, assim, me levaram a reflexão de que mais aprendi do que ensinei. Aprendi que nem todos são iguais e que é extremamente necessário respeitar essas diferenças. Que não posso obrigá-los a aprender o que ensino, mas que posso dar motivos para que queiram aprender. Aprendi que ser um bom aluno, muitas vezes, não significa tirar 10 sempre, mas que o esforço para conseguir uma boa nota foi tudo o que se pôde dar naquele momento.
Enfim, compreendi que ser professor é, também, ser aluno, que muitas vezes aprende o que as turmas podem lhe ensinar, mas outras vezes não. Que escuta, atentamente, o que eles querem dizer, mas nem sempre ouve o que é essencial. Aprendi que cada turma é única, cada aluno é singular e cada um tem um significado especial.
Entendi, então, que ser professor é, acima de tudo, aprender lições que o ‘quadro da vida’ não apagará jamais.
Obrigado, meus alunos!

Deus não me ama mais...

...quando eu acerto, nem me ama menos quando erro.
Essa é uma característica do amor de Deus que é muito difícil de compreender (se eu disser que entendo totalmente estarei mentindo).
A dificuldade em entender esse atributo se dá porque comparamos o amor de Deus com o que conhecemos sobre o “amor” ou com o que nos foi ensinado sobre o que é amar. Consciente ou inconscientemente, fomos levados a acreditar que só se deve amar o que é “bonito”, “bom”, “confortável”, enfim, o que de alguma forma nos traga satisfação. Quando criança, raramente nos ensinam que devemos amar, também, o coleguinha “feio” da sala, o cara “malvado” da rua, o mendigo da esquina ou nossos inimigos, como a bíblia ensina.
Não culpe seus pais, ou qualquer outra pessoa, por isso. Eles estavam apenas “protegendo” você do lado “feio” da vida e deixaram que o tempo se encarregasse de ensinar as lições mais duras. O lado ruim disso é que, às vezes, ficamos grandinhos demais e não queremos aprender tais ensinamentos, afinal de contas eles só parecem ter validade para uma única pessoa que, por acaso, é o Filho do AMOR: Jesus Cristo. Parece que apenas o Filho de Deus é “obrigado” a amar o que “não presta”.
Não quero ser demagogo e negar que é bem mais fácil e óbvio amar o que é “bonito”, “bom” e “confortável”. Antes de tudo, esse texto é uma lição para mim.
O que me levou a escrever sobre o assunto foi a reflexão do imensurável e incompreendido amor de Cristo por nós: se doou a ponto de morrer por muitos que nem creriam Nele, que zombariam de Sua atitude, que O rejeitaria (isso se chama liberdade, ainda pretendo escrever sobre esse assunto), que O negaria e que sequer dariam ouvidos às Suas palavras.
O que leva alguém a amar tanto assim? Por que Deus nos ama mesmo quando O ofendemos com nossas ações, palavras e pensamentos? Por que continua nos amando quando erramos o alvo? Penso que tem a ver com o fato de sermos criaturas Dele, com o fato de Ele ter nos projetado, arquitetado, sonhado conosco.
Esses dias tenho olhado e feito algumas plantas de casas (rascunhos, para ser mais específico) e, quando eu concretizar alguma delas, não vou querer que digam que a casa é feia, foi mal projetada ou que está desconfortável. Eu, que sou apenas um mero mortal e nem sei desenhar, imagine o Grande Arquiteto, que fez tudo com tanta perfeição e amor!
Será que Deus tem preferência por algumas das suas criaturas? É claro que não! Pois enviou seu Filho para morrer por TODOS, isso mesmo, em letras garrafais! “...Amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito...” (ah, você sabe João 3.16 de cor e salteado, não é? Nem preciso completar). Não importa se feio, bonito, rico, pobre, branco, negro, cristãos, ateus. Deus ama TODOS os pecadores (que alívio saber disso!), mas aborrece o pecado, pois é a única coisa que nos separa Dele e o que Deus não quer é ficar distante de nós, acredite!
Esses dias estava me perguntando e, ao mesmo tempo, me respondendo: “sabe por que Deus não me ama mais? Porque o AMOR é do tamanho de Deus. Ele é o próprio amor, ou seja, é infinito. Deus não me ama mais porque seu amor por mim (e por ti também) é tão grande que não há mais para onde crescer!”.

Amor sacrificial

"Não me faça pergunta quando estou apaixonado", foi o que disse pra Deus há uns dias atrás.
Já devo ter escrito em algum lugar que a maior prova de amor que se pode dar a uma pessoa é 'gastar' nosso tempo com ela, pois ele nos é dado com limite; é parte da nossa vida que não volta atrás; literalmente damos a vida pra alguem quando 'gastamos' nosso tempo com ela.
Às vezes, me preocupa a forma como uso meu tempo. Será se não 'corro' demais e esqueço do que realmente importa? Será que tenho passado tempo suficiente com minha família para que ela saiba o quanto a amo? Será que tenho dado minha vida pelos meus amigos, colegas de trabalho ou qualquer outra pessoa que precise de ajuda? Será que amo a Deus a ponto de morrer, mesmo que não literalmente, pelos outros? Enfim, sei que qualquer outro bem que tivermos não se compara com o tempo que nos dedicamos às pessoas, mas será que tenho me dedicado àqueles a quem tanto amo? Espero ter respondido afirmativamente à maioria dessas indagações.
Todavia, o que me fez refletir sobre 'amar verdadeiramente' ao próximo, foi o trecho de um livro que li, que diz o seguinte: "Para amar como Deus nos ama, talvez tenhamos de nos separar daquilo que nos é mais precioso, por causa dos outros". Sem dúvida nenhuma, o que tenho de maior valor, em primeiro lugar, é minha família, depois meus amigos, seja da faculdade, do trabalho ou de qualquer outro lugar. Eles são tão valiosos pra mim que não consigo imaginar a eternidade sem nenhum deles. Quero amá-los eternamente!
Outro dia estava me perguntando: "Se Deus quisesse que eu fosse pra uma terra distante eu teria coragem de ir, mesmo sabendo que 'nunca mais' poderia ver aqueles a quem mais amo no mundo?" Foi aí que respondi: "Não me faça pergunta quando estou apaixonado, pois, sem pestanejar, eu responderia sim!".
Só depois disso a frase do livro fez sentido pra mim. Quero ter o 'amor sacrificial' a ponto de me entregar sem reservas ao chamado de Deus, mas antes de 'partir' quero olhar nos olhos de cada pessoa que amo e dizer: não se preocupe comigo; é só por um tempo, pois teremos a eternidade toda para vivermos juntos!



(dedicado à minha família e amigos)

Vale muito a pena!

Há alguns anos atrás, estava voltando da casa de um primo meu, que morava na Vila Ipiranga na época, e relembrei uma música que cantava na infância.
A letra da música era a seguinte:

"Te amamos, Deus, e te adoramos;
Com gratidão por teu amor!
Escuta, ó Rei, esse meu cantar;
Que este seja um doce som para Ti"

Cantei essa música, bem baixinho, durante todo o percurso: Vila Ipiranga-Vila Nova (quem conhece Imperatriz sabe que isso demoraria um bom tempo, cerca de uma hora, no mínimo!).
Era uma tarde quente. Havia poucas pessoas no ônibus e por mais que eu tentasse parar de cantar, não conseguia.
As lágrimas começaram a rolar dos meus olhos, pois sabia que aquela música não refletia a realidade. Eu não estava amando a Deus com minha alma, estava afastado Dele e nem era grato pelo Seu amor, como dizia a canção.
Mesmo assim, não conseguia parar de cantar, eu estava incontrolável, inconsolável. Só conseguia pronunciar as palavras da música e chorar.
Fiquei sem entender esse episódio por muito tempo.
Há alguns dias, lembrei desse fato e perguntei pra Deus o que esse gesto tinha provocado. Será que eu teria tocado o coração de Deus com aquela canção regada à lágrimas?
A resposta de Deus foi surpreendente:
"É por esse motivo que hoje você pode me fazer essa pergunta, meu filhinho"
Às vezes não entendemos o porquê de certas ações, nem damos muito valor aos momentos de verdadeira adoração a Deus, mas acredite, um gesto seu para com Ele pode salvar sua vida, por isso, Adore-O e Ame-O com todo o seu coração, alma, força e entendimento.
Vai por mim, vale muito a pena!