Há dias em que a vida passa despercebida. Parece que não se vive.
Amanhece. Há sol, rotina, há tudo no mesmo lugar, menos você.
Eu não estou no mesmo lugar. Estou distante, passando pelo dia.
O clima muda, você se percebe vivo. Assiste, ri, cuida do corpo e se olha no espelho.
Anoitece e do lado de fora ouço "ventos, ventania". Penso que "daqui a um mês", a noite vai ser diferente: terei um amor por perto, pra falar sobre a vida ou não precisar falar sobre nada. Apenas olhar e sorrir. Quando estão juntos ouvem e acreditam: "um dia a gente há de ser feliz, se Deus quiser!".
Mas, por hoje, um "pequeno príncipe" me espera na cama. Vou lê-lo, ou melhor, relê-lo. Suspirando e pressionando as páginas contra o peito. Pra sentir. Me sentir. Pra lembrar que tenho um coração que pulsa. Que tenho uma alma sinestésica.
O frio que sinto por dentro é maior do que a temperatura fora do quarto. O céu fecha, fica nublado. Chove torrencialmente.
Por dentro o coração reflete o tempo. Nubla. Espera o sol ou espera apenas adormecer, pois acredita em ditados: "depois da tempestade vem a bonança".
Acredita em amor também. Acredita em si.
É um coração forte. Sabe aproveitar a chuva também. Sabe viver em dias de sol ou dias nublados.
Com o tempo, aprendeu um pouco sobre o viver. Sobreviver!
Dilema
Postado por
Ferro.
Era uma palavra pouco usada por mim, aliás, nunca parei pra pensar no que ela significava de fato. Só há duas semanas atrás é que ela veio fazer sentido, ou não.
Eu tinha a ideia do que era um dilema, mas acho que nunca havia vivido um. Pensando bem, ainda não vivi.
Segundo alguma descrição vaga e superficial, dilema é um problema que oferece duas soluções, sendo que nenhuma das quais é aceitável. Em outro lugar li que dilema é uma situação em que se deve tomar UMA de DUAS decisões difíceis.
Pra mim, hoje, dilema é esperar.
Esperar que se decida algo que já está resolvido, pelo menos para mim.
Não consigo conceber que dilema esteja relacionado a sentimento.
Em se tratando de amar, pra mim não há dilema. Amar nunca foi problema; é solução. É decisão e, portanto, para amar não deve haver dúvidas.
Amar é questão de entrega. Toda escolha difícil envolve risco. Amar é correr riscos também. Viver é arriscar-se!
Enquanto se vive um dilema, a vida não espera. Passa.
Outro dia uma grande amiga me disse que eu era muito 'instável'. Concordei completamente. Nunca fui estável. Sou transeunte da vida. Passageiro. Em muitas situações pareço não saber o que quero. Indeciso.
Mas, quando se trata de amor, ou da ideia que tenho dele, sei bem o que quero. Sei que não há dilema. Sei que quero viver. Intensamente. Apressadamente. Sem perder tempo, apenas viver!
Se preocupar com o amanhã a ponto de não viver o hoje é esforçar-se em vão. O que garante o amanhã? Nada!
Vou deixar pra usar essa palavra mais tarde... talvez. Mas, por hoje, só por hoje, decido não viver dilema. Decido viver amor. Isso me basta!
Eu tinha a ideia do que era um dilema, mas acho que nunca havia vivido um. Pensando bem, ainda não vivi.
Segundo alguma descrição vaga e superficial, dilema é um problema que oferece duas soluções, sendo que nenhuma das quais é aceitável. Em outro lugar li que dilema é uma situação em que se deve tomar UMA de DUAS decisões difíceis.
Pra mim, hoje, dilema é esperar.
Esperar que se decida algo que já está resolvido, pelo menos para mim.
Não consigo conceber que dilema esteja relacionado a sentimento.
Em se tratando de amar, pra mim não há dilema. Amar nunca foi problema; é solução. É decisão e, portanto, para amar não deve haver dúvidas.
Amar é questão de entrega. Toda escolha difícil envolve risco. Amar é correr riscos também. Viver é arriscar-se!
Enquanto se vive um dilema, a vida não espera. Passa.
Outro dia uma grande amiga me disse que eu era muito 'instável'. Concordei completamente. Nunca fui estável. Sou transeunte da vida. Passageiro. Em muitas situações pareço não saber o que quero. Indeciso.
Mas, quando se trata de amor, ou da ideia que tenho dele, sei bem o que quero. Sei que não há dilema. Sei que quero viver. Intensamente. Apressadamente. Sem perder tempo, apenas viver!
Se preocupar com o amanhã a ponto de não viver o hoje é esforçar-se em vão. O que garante o amanhã? Nada!
Vou deixar pra usar essa palavra mais tarde... talvez. Mas, por hoje, só por hoje, decido não viver dilema. Decido viver amor. Isso me basta!
O sítio
Postado por
Ferro.
Enchia os pulmões como se pudesse respirar o mesmo ar de alguns anos atrás.
O sítio sempre foi o lugar preferido do pequeno João Pedro. Hoje, aos vinte anos, não tão pequeno assim.
Formara-se em Medicina Veterinária na cidade grande, onde passou a viver desde a adolescência.
Voltar àquele lugar era como ver um filme onde o personagem principal era a mesma pessoa que via no espelho embaçado do apartamento.
O pé de amora, carregado da doce e púrpura fruta, tinha mudado. Parecia estar bem menor, observou João ao chegar perto da árvore.
Sentiu falta da goiabeira que ficava próximo a horta. Ela havia morrido no verão passado, atacada por uma praga que levou o caseiro a cortá-la pelo tronco. Em compensação, conheceu novas árvores que cresceram ao longo dos anos em que não pisava naquele lugar.
O lago ainda era o mesmo, mas, ao contrário da amoreira, parecia estar bem maior. O rapaz lembrou-se dos tempos em que seu pai o ensinava a nadar ali. Os olhos encheram-se de lágrimas.
O pai era um homem muito ocupado com os negócios: comprar gado, vender terra, plantar, colher, enfim, a vida de um grande produtor era bastante agitada. O pouco tempo que tinha ao lado do pai era desfrutado a conta-gotas, sem pressa.
Foi inevitável misturar as lágrimas às águas do lago. O pai havia falecido há poucos meses. O sítio lhe tinha ficado como herança e estava decidido a vendê-lo, já que cuidar de bicho na cidade grande seria o seu destino de agora em diante.
Antes de vender, veio a ideia de voltar ao lugar onde passara sua infância. Só estava ali para avaliar melhor o valor que cobraria pela terra que herdara.
A cidade grande, sem dúvida, era mais atraente, convencia-se João Pedro. A agitação que conhecera ao longo dos anos, na metrópole, parecia ter apagado da memória a tranquilidade que sentia ao deitar-se na varanda, ao entardecer, ouvindo o som das águas do lago.
Não queria lembrar-se de quando alimentava os patos e galinhas, nem do dia em que caiu do pé de tamarindo ao tentar colher um fruto. Era impossível não lembrar, a frondosa árvore continuava de pé e estava ali à sua frente naquele exato momento.
Sem olhar para trás, João decide voltar para a cidade.
A cor cinza da metrópole ofusca-lhe os olhos. O ar pesado das ruas sufoca-lhe os pulmões. Os dias seguintes à visita ao sítio deram-lhe uma sensação estranha: um menino parecia gritar dentro dele. Pedrinho, como era chamado pelos pais, queria correr e foi justamente o que fez.
Correu para o apartamento, arrumou as malas e, sem exitar, partiu para o sítio.
Nem olhou pelo retrovisor. A cidade sumiu sem que ele percebesse.
Em algumas horas de viagem estava de volta à infância.
Descalço, correu para o lago; mergulhou; comeu amoras e adormeceu na varanda. Descobriu, então, o maior valor que o sítio tinha: torná-lo, novamente, o pequeno João.
(Texto publicado na edição do mês de junho do jornal Balaio Rural, de Imperatriz-MA)
O sítio sempre foi o lugar preferido do pequeno João Pedro. Hoje, aos vinte anos, não tão pequeno assim.
Formara-se em Medicina Veterinária na cidade grande, onde passou a viver desde a adolescência.
Voltar àquele lugar era como ver um filme onde o personagem principal era a mesma pessoa que via no espelho embaçado do apartamento.
O pé de amora, carregado da doce e púrpura fruta, tinha mudado. Parecia estar bem menor, observou João ao chegar perto da árvore.
Sentiu falta da goiabeira que ficava próximo a horta. Ela havia morrido no verão passado, atacada por uma praga que levou o caseiro a cortá-la pelo tronco. Em compensação, conheceu novas árvores que cresceram ao longo dos anos em que não pisava naquele lugar.
O lago ainda era o mesmo, mas, ao contrário da amoreira, parecia estar bem maior. O rapaz lembrou-se dos tempos em que seu pai o ensinava a nadar ali. Os olhos encheram-se de lágrimas.
O pai era um homem muito ocupado com os negócios: comprar gado, vender terra, plantar, colher, enfim, a vida de um grande produtor era bastante agitada. O pouco tempo que tinha ao lado do pai era desfrutado a conta-gotas, sem pressa.
Foi inevitável misturar as lágrimas às águas do lago. O pai havia falecido há poucos meses. O sítio lhe tinha ficado como herança e estava decidido a vendê-lo, já que cuidar de bicho na cidade grande seria o seu destino de agora em diante.
Antes de vender, veio a ideia de voltar ao lugar onde passara sua infância. Só estava ali para avaliar melhor o valor que cobraria pela terra que herdara.
A cidade grande, sem dúvida, era mais atraente, convencia-se João Pedro. A agitação que conhecera ao longo dos anos, na metrópole, parecia ter apagado da memória a tranquilidade que sentia ao deitar-se na varanda, ao entardecer, ouvindo o som das águas do lago.
Não queria lembrar-se de quando alimentava os patos e galinhas, nem do dia em que caiu do pé de tamarindo ao tentar colher um fruto. Era impossível não lembrar, a frondosa árvore continuava de pé e estava ali à sua frente naquele exato momento.
Sem olhar para trás, João decide voltar para a cidade.
A cor cinza da metrópole ofusca-lhe os olhos. O ar pesado das ruas sufoca-lhe os pulmões. Os dias seguintes à visita ao sítio deram-lhe uma sensação estranha: um menino parecia gritar dentro dele. Pedrinho, como era chamado pelos pais, queria correr e foi justamente o que fez.
Correu para o apartamento, arrumou as malas e, sem exitar, partiu para o sítio.
Nem olhou pelo retrovisor. A cidade sumiu sem que ele percebesse.
Em algumas horas de viagem estava de volta à infância.
Descalço, correu para o lago; mergulhou; comeu amoras e adormeceu na varanda. Descobriu, então, o maior valor que o sítio tinha: torná-lo, novamente, o pequeno João.
(Texto publicado na edição do mês de junho do jornal Balaio Rural, de Imperatriz-MA)
Um abraço
Postado por
Ferro.
Vim aqui deixar uma coisa pra você.
Não sei se estás precisando, mas assim mesmo vim te dar.
É um abraço... na medida certa para suas angústias.
Um abraço que, embora simples, cabe certinho em você para usá-lo na hora e no momento em que mais precisar.
Um abraço sincero, de alguém que já não cabe mais de tanto amor!
(Dedicado à Cilla Moura)
Não sei se estás precisando, mas assim mesmo vim te dar.
É um abraço... na medida certa para suas angústias.
Um abraço que, embora simples, cabe certinho em você para usá-lo na hora e no momento em que mais precisar.
Um abraço sincero, de alguém que já não cabe mais de tanto amor!
(Dedicado à Cilla Moura)
Urbana flor do campo
Postado por
Ferro.
Em meio à grama de uma calçada de ladrilhos, ela insiste em nascer. Delicada, bela e azul: uma flor do campo.
Esquecida. Apagada pela correria do dia-a-dia, ela está lá: viva! Permanece no anonimato por muito tempo. Talvez seja notada apenas pelo vigia, que a rega todas as manhãs ou por algum transeunte que, distraído, olha para chão na esperança de encontrar alguma moeda perdida.
Não nasceu por acaso. Está ali para enfeitar um jardim que, por ironia do nome, não havia nenhuma outra flor senão ela: a solitária flor azul.
Em uma manhã qualquer, ela desabrocha para vida. Não a sua própria vida, pois já havia desabrochado há muito tempo, mas para a vida de três jovens, encantados em ver a solitária flor resistir à “selva de pedras”.
Até que enfim seu propósito tinha se realizado: trazer beleza aos olhos de alguém. Por alguns minutos a bela flor do campo tem seu momento de glória.
Mas, movida por um súbito instinto humano, uma jovem, tão delicada e bela quanto à flor, a esmaga com os pés.
Sem cerimônia alguma, a moça pisa a flor como se pisa uma barata. Os outros jovens a censuram: “pobre flor; não merecia tal sorte!” e um deles até tenta, sem sucesso, consertar o estrago, colocando a pétala frágil e azul sobre o caule da urbana flor.
Se tivesse nascido na roça teria mais chances de viver! Enfeitaria o jardim de uma velha e amável senhora acompanhada de outras flores de cores e cheiros diferentes! Mas, a vida na cidade grande é cruel... até para as belas flores.
Pobre urbana flor do campo! Nem teve tempo de virar uma “estrela”. Se tivessem fotografado tal flor, certamente hoje estaria enfeitando, como papel de parede, a área de trabalho da tela de algum computador.
Esquecida. Apagada pela correria do dia-a-dia, ela está lá: viva! Permanece no anonimato por muito tempo. Talvez seja notada apenas pelo vigia, que a rega todas as manhãs ou por algum transeunte que, distraído, olha para chão na esperança de encontrar alguma moeda perdida.
Não nasceu por acaso. Está ali para enfeitar um jardim que, por ironia do nome, não havia nenhuma outra flor senão ela: a solitária flor azul.
Em uma manhã qualquer, ela desabrocha para vida. Não a sua própria vida, pois já havia desabrochado há muito tempo, mas para a vida de três jovens, encantados em ver a solitária flor resistir à “selva de pedras”.
Até que enfim seu propósito tinha se realizado: trazer beleza aos olhos de alguém. Por alguns minutos a bela flor do campo tem seu momento de glória.
Mas, movida por um súbito instinto humano, uma jovem, tão delicada e bela quanto à flor, a esmaga com os pés.
Sem cerimônia alguma, a moça pisa a flor como se pisa uma barata. Os outros jovens a censuram: “pobre flor; não merecia tal sorte!” e um deles até tenta, sem sucesso, consertar o estrago, colocando a pétala frágil e azul sobre o caule da urbana flor.
Se tivesse nascido na roça teria mais chances de viver! Enfeitaria o jardim de uma velha e amável senhora acompanhada de outras flores de cores e cheiros diferentes! Mas, a vida na cidade grande é cruel... até para as belas flores.
Pobre urbana flor do campo! Nem teve tempo de virar uma “estrela”. Se tivessem fotografado tal flor, certamente hoje estaria enfeitando, como papel de parede, a área de trabalho da tela de algum computador.
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